ARTIGOS


01- Estudo do discurso relatado em Vidas Secas, apresentado no III Colóquio de Semiótica, Brasil, 2010.

As grandes obras guardam, por várias razões, uma permanente atenção que nos faz tê-las sempre conosco na admiração e na busca dos mistérios que as envolvem.
Evanildo Bechara


INTRODUÇÃO

            Em tempos, à escola cabia tão somente o papel de ensinar aos alunos, nas aulas de Língua Portuguesa como L1, a gramática institucionalizada, como preconizavam as instituições de ensino canônicas. Felizmente, a evolução da humanidade não se deu apenas no âmbito tecnológico; ela atingiu a sala de aula e, graças aos estudos cada vez mais frequentes e aprofundados da análise do discurso e da linguística textual, trouxeram-se, à baila, discussões pertinentes ao campo da estilística.
            Há uma emergência tácita em dinamizar o ensino da língua, considerando os novos exames Vestibulares brasileiros, que avaliam não só os conteúdos adquiridos na vida escolar dos candidatos, mas principalmente as competências e habilidades que estão relacionadas com o “saber fazer” e o “como fazer” respectivamente. No domínio da leitura e interpretação de textos, a competência leitora se expressa por meio de habilidades de compreensão, que, por sua vez, se concretiza em operações e esquemas de ação. Assim, cabe ao professor de Português ensinar a gramática contextualizada, inserida no texto e produtora de sentido.
            Nesse viés, os ensinamentos de estilística servirão de baldrame a uma análise pormenorizada de textos de autores consagrados de nossa literatura, pondo o estilo individual em contraste com os hábitos de caracterizar a língua apenas nos níveis fônico, gramatical e semântico.
            À luz dessa reflexão, orientou-se a nossa análise e sistematização do discurso relatado em Vidas Secas, de Graciliano Ramos, levantando as indagações que se tornaram presentes: (1) Estariam os discursos relatados, em Vidas Secas, veiculados por meio das marcas apontadas pelos teóricos da língua e da literatura? (2) Encerraria a linguagem de Graciliano Ramos as características que encontramos descritas na bibliografia brasileira disponível sobre o discurso relatado, em especial o indireto livre?
            A língua, na forma como o autor relata a fala de seus personagens nos capítulos do romance citado, mereceu ser objeto de estudo sob a égide da estilística e com apoio especial na Teoria da Iconicidade Verbal (Simões, 2009). Com propósito de contribuir para a ampliação de pesquisas nessa área, realizamos esse trabalho, que pode servir de subsídio para as aulas de língua portuguesa com vistas ao Vestibular e também para a descrição de algumas tendências que podem ser identificadas nas realizações sintáticas e morfológicas, especificamente nos domínios da estilística.
            Segundo nos parece, os critérios adotados na elaboração da presente pesquisa[1] e o exame da exemplificação colhida possibilitaram uma visão mais próxima do estilo de Graciliano Ramos ao reportar a fala de seus personagens.
O suporte teórico da pesquisa está no que usualmente registram, sobre esse assunto, nas melhores gramáticas de nossa língua – notadamente Celso Cunha e Cintra e Rocha Lima – e, nos estudos sobre estilo e semiótica – Mattoso Camara Jr., Catherine Fromilhage, Anne Sancier-Chateau, Luiz Antônio Marcuschi e Darcilia Simões.
            Valemo-nos também das provas de concursos Vestibulares – ENEM, UERJ, UFF, UFRJ, UnB, UFMG e USP – para o melhor conhecimento das tendências contemporâneas de cobrança em exames nacionais de ensino médio quando se trata do assunto em tela.

CARACTERIZAÇÃO DO CÓRPUS

O romance
            A eleição do romance Vidas Secas, de Graciliano Ramos, como córpus, se deu por receber esta obra o beneplácito dos estudiosos em discurso relatado que, quase unanimemente, se inclinaram pela primazia com que o autor faz uso desse tipo de relato de fala, em especial do discurso indireto livre. E foi com riqueza de dados que trouxemos à consideração, em trabalho crítico, o estilo pessoal de Graciliano, agasalhando-o com o estudo da Iconicidade Verbal (Simões, 2009).
            Justamente por ser narrado em terceira pessoa, o narrador mergulha nos pensamentos dos personagens para revelá-los ao leitor. Dessa forma, o texto foi estruturado com discurso indireto livre (predominante), em que o narrador se apropria do discurso das personagens para expô-los, demonstrando seus anseios, raivas, temores e frustrações. Esse ponto de vista da narrativa evidencia principalmente a pouca ou quase nenhuma habilidade linguística das personagens do livro. Graciliano trabalha o não-falar de Fabiano, por exemplo, como a demonstração da subserviência de um ser-humano em condições degradantes. A privação da fala confirma a crítica social de sua obra, discutindo a opressão dos latifundiários sobre os retirantes que lhes tiravam, inclusive, o direito de argumentar.
            A linguagem minimalista utilizada por Graciliano é predominante na descrição do ambiente e das personagens, a fim de que a atenção do leitor esteja voltada tão somente para os pensamentos dos retirantes, sempre evocados pela narrativa de Graciliano. Esse mecanismo linguístico se desdobra tanto no plano de significante, como no de significado, como uma associação entre o falar dos retirantes e a própria condição social em que vivem. Bakhtin (1986, p.17) considera, também, “a língua como expressão das relações e lutas sociais, veiculando e sofrendo o efeito desta luta, servindo, ao mesmo tempo, de instrumento e de material.”

As provas
Avaliando as questões sobre discurso relatado das provas de Vestibular dos últimos cinco anos, constatamos uma frequência considerável de análise de trechos do romance de Graciliano. Assim, decidimos seguramente que seria a melhor obra a ser analisada, para uma prática de ensino ajustada aos moldes atuais.






A CONTRIBUIÇÃO DA ESTILÍSTICA E DA TEORIA DA ICONICIDADE VERBAL

            A estilística estuda inúmeros recursos que a língua coloca à disposição dos falantes para expressarem suas emoções, seus sentimentos e sua imaginação. A partir desses estudos, começamos a pensar em fatores linguísticos, psicológicos e sociais que interferiram nos modos de expressão do autor de Vidas Secas, que direcionou sua obra a um determinado público e a um determinado tipo de linguagem. Deste modo, percebe-se que a expressão de uma emoção não depende unicamente da reação do usuário, mas da capacidade linguística do destinatário e do espaço da comunicação.
            Podemos perceber também que há vários modos de integrar os discursos relatados em uma narrativa e é por meio destes que o narrador relata as falas dos personagens.   Entramos a trabalhar, então, os discursos relatados com base na Teoria da Iconicidade Verbal (Simões, 2009), doravante TIV, por entendermos que essa base teórica ajuda-nos a reconhecer com mais facilidade cada tipo de discurso, quais sejam, o direto, o indireto e o indireto livre. Trabalhamos com a nomenclatura semiótica ao identificarmos os signos icônicos e os indiciais dos relatos de fala. Estes servem como vetores, que indicam quem está com a palavra; aqueles, como representantes (marcas) substitutivos dos atos de fala. Vejamos abaixo como se caracteriza cada tipo de discurso relatado e quais as suas principais marcas.

1-    Discurso direto

            A personagem toma a palavra; o discurso direto interrompe a voz do narrador e cria dentro do espaço da narrativa outro espaço de enunciação. As duas vozes, a do narrador e a do personagem, são distintas nitidamente, não se confundem, pois o personagem fala diretamente sem a interferência do narrador, que apenas informa e esclarece quem fala, pelo menos quando o discurso direto é claramente inserido da narrativa.

            O discurso direto apresenta ícones (marcas, signos orientadores) como:
1-    Dois pontos – que marcam o fim da fala do narrador
2-    Travessão – que marcam o início da fala do personagem e a mudança de locução num diálogo.
3-    Aspas – que marcam o início e o fim de uma citação.
            Os exemplos usados neste trabalho foram retirados do livro Vidas Secas (Graciliano Ramos, 2010).

          Animou-se e interrogou o bodegueiro:
         __ Por que é que vossemecê bota água em tudo? (p. 28)

            O excerto acima é um exemplo clássico de discurso direto, em que se notam (1) a presença de dois-pontos e travessão, ícones deste tipo de discurso, e também a presença do verbo introdutório de fala “interrogou”, índice que aponta para quem está com a palavra (no caso, Fabiano).
            O discurso direto é considerado o relato mais fiel e, portanto, o mais objetivo, porque representa exatamente o que o personagem disse. Dominique Maingueneau (1996, p.105) afirma, no entanto, que utilizar o discurso direto não garante a objetividade. Na realidade, o traço distintivo desse discurso é que um mesmo “sujeito falante” se apresenta como narrador, mas é também “locutor” da fala citada, delegada a um segundo “locutor”, o do discurso direto. Essa encenação no interior da fala cria um distanciamento entre narrador e personagem, mas de modo algum consubstancia uma garantia de objetividade. O discurso citado só tem existência por meio do discurso do enunciador (no caso, o narrador), que constrói como quer um simulacro da situação de fala.
            Observamos cada página desse romance e notamos uma característica marcante do autor, criando choques significativos com a teoria apresentada pelos teóricos sobre os discursos relatados, em especial o direto, de que resulta, por assim dizer, a centelha estilística: Graciliano pouco usa verbos introdutórios de fala (os chamados verbos “dicendi”).





Nas palavras de DUARTE:

Quando usados, tendem a caracterizar a “voz” que introduzem e são essenciais para se conhecer a situação de enunciação do enunciado “relatado”, com a pluralidade de matizes que inclui: entoação, efeitos de pausa, indicações de mise en scène vocal e paralinguística, etc.


            Maingueneau (1996, p. 113) afirma que a escolha dos verbos introdutores de discurso relatado tem “consequências importantes na maneira pela qual o leitor vai interpretar a citação; a ação do verbo passa despercebida quanto maior for a eficácia da orientação do verbo.” Segundo Marcuschi, o verbo dicendi é neutro, no entanto, como se pode verificar após a análise do material, é que essa neutralidade varia conforme o contexto da obra. Ainda segundo DUARTE:

Nem todos os verbos introdutores de discurso relatado são verba dicendi. Também introduzem relato verbos de opinião, de consciência, de sentimento. Introduzem igualmente relato verbos que só são considerados de comunicação em contextos de interlocução, como: começar, concluir, acrescentar, interromper ou alguns verbos usados metaforicamente no discurso literário, como mugir ou rosnar, que acrescentam valores conotativos ao “dizer”.

            Pusemos em análise um trecho do livro, a fim de atestar as observações supracitadas.

Menino é bicho miúdo, não pensa. Mas Sinha Vitória renovou a pergunta – e (1) a certeza do marido abalou-se. Ela devia ter razão. (2)Tinha sempre razão.  Agora desejava saber que iriam fazer os filhos quando crescessem.
Vaquejar, (3) opinou Fabiano.
Sinha Vitória, com uma careta enjoada, (4) balançou a cabeça negativamente, arriscando-se a derrubar o baú de folha. Nossa Senhora os livrasse de semelhante desgraça. (5) Vaquejar, que ideia!

            O verbo utilizado por Graciliano como marca indicial da fala de Fabiano não é dicendi, mas verbo de opinião. O personagem não afirmou, não disse, não falou, ele opinou. Isso porque Fabiano sabia que sua fala não teria força argumentativa de afirmação, já que Sinha Vitória tinha sempre razão, como nos relata o narrador em (2). Tanto que “a certeza do marido abalou-se” (1), quando a esposa refez a pergunta. A escolha do verbo “opinar” como introdutor de fala confirma a personalidade tanto de Fabiano quanto de Sinha Vitória: ele sempre dependente dela, ela sempre discordando dele, como podemos ver pela fala indicial (4), indicando que ela discordou da opinião do marido, confirmando em (5).
            A partir da análise da obra literária em questão, pode-se observar: (1) que existe uma valoração na escolha dos verbos introdutores de discurso direto, ou seja, a utilização de verbos que introduzem o discurso do outro não é feita aleatoriamente, mas baseada na camada social do tipo de personagens da ficção, nos valores e opiniões de quem está escrevendo ou na característica marcante da personagem; (2) que há uma intenção inerente à ausência do verbo introdutor de discurso relatado, qual seja, a de permitir ao leitor que decida com que força argumentativa as falas foram proferidas. Essa omissão desses verbos, marca estilística do autor, é, por vezes, substituída por uma referência a um gesto (1), um sentimento (2), uma ação (3), um juízo de valor (4) que acompanham esse discurso. Vejamos exemplos:

(1)Voltou, circulou (3) a casa atravessando (3) o cercadinho do oitão, entrou (3) na cozinha.
__ É capaz de Fabiano ter-se esquecido da vaca laranja.

(2) Cansada, meio morta de fome, carregava o filho mais novo, o baú e a gaiola do papagaio. Fabiano era ruim(4).
__ Mal-agradecido.

(3) Não tinha desmanchado por causa dos homens que mandavam. Cuspiu (1), com desprezo (4):
__Safado, mofino, escarro de gente.

Assim, essas referências são signos indiciais do sentimento, das ações, dos pensamentos dos personagens em seus atos de fala. A demarcação desses signos reforça a TIV em que

é possível identificar nos textos marcas que permitam de alguma forma inferir o(s) projeto(s) comunicativo(s) subjacentes. Diz-se projeto ou projetos porque os textos polissêmicos permitirão a captura de várias matrizes interpretativas, ressalvados os limites da trama sígnica que compõe o texto. Para nós, o texto é uma unidade comunicativa, cuja análise demanda domínio gramatical (considerada a variação linguística), estilístico (tendo em conta os gêneros textuais e a variação linguística) e semântico-pragmático (observando a contextualização das interlocuções).  (Simões, 2009)


            Fazendo uma leitura semiótica da estruturação do discurso relatado em Graciliano Ramos, vemos uma possibilidade real de orientar o ensino desta teoria pela iconicidade diagramática (cf. NÖTH, 1995, p. 98-105). A partir dela é possível a identificação de marcas com as quais se produz a compreensão do texto. As marcas são nada mais que signos estratégicos, colocados em posições específicas no texto, com a finalidade de orientar a leitura. Com esse subsídio semiótico, explicamos a estruturação dos processos enunciativos a partir do verbo introdutor de discurso relatado. Tomá-lo-emos como bússola do arranjo das peças icônicas (representativas, fundadas na similaridade) e indiciais (indutoras, fundadas na contiguidade), cuja combinação produz as imagens semântico-pragmáticas que subsidiarão a leitura e a compreensão das falas dos personagens e, por conseguinte, do texto.
            Outra marca icônica do discurso direto são as aspas. Consideradas por Maingueneau (2001) como uma modalização autonímica, podem ser utilizadas nos casos em que se transcreve literalmente o discurso de alguém – discurso direto – como no exemplo a seguir, retirado do romance em estudo:

Não sabia. Saíra-se com quatro pedras na mão, apitara. E Fabiano comera da banda podre. “Desafasta.” (p. 105)

            Maingueneau explica que, ao colocar palavras entre aspas, o enunciador, na verdade, apenas chama a atenção do leitor para o fato de estar empregando exatamente as palavras que ele está aspeando; salientando-as, delega ao interlocutor a tarefa de compreender o motivo pelo qual ele está chamando assim sua atenção e abrindo uma brecha em seu próprio discurso (MAINGUENEAU, 2001, p. 160).

2-    Discurso indireto
           
            No discurso indireto (DI), o narrador diz com suas próprias palavras o que dizem as personagens. Segundo Catherine Fromilhage e Anne Sancier-Chateau “a voz da personagem é assimilada pela do narrador: há apenas um espaço de enunciação, o do narrador.” (1996, p. 9)
            Podemos perceber, neste trecho de Vidas Secas, como o narrador conduz a fala do personagem, interpretando-as e contribuindo para uma maior coerência na narrativa. As marcas deste discurso têm como consequência uma narrativa lenta que pode estar relacionada ao seu contexto. No excerto abaixo, nota-se a lentidão da cena em que Fabiano estava “estimulado pela cachaça”, conforme anuncia o narrador em período anterior. Ficou valente e demorava-se a falar. Suas ações também eram lentas. Daí a escolha pelo DI.
            As marcas icônicas desse tipo de discurso são as conjunções integrantes e os pronomes e advérbios interrogativos.
1-    Para o verbo “dizer” e semelhantes, usa-se a conjunção subordinativa integrante QUE;
2-    Para o verbo “perguntar” e semelhantes, usam-se: (a) a conjunção subordinativa integrante SE, (b) pronomes interrogativos como QUEM, QUE e (c) advérbios interrogativos como ONDE, COMO, QUANDO etc.
            A marca indicial do DI são os verbos introdutores do discurso relatado: dizer, perguntar, afirmar, opinar, gritar etc.
            No excerto abaixo, o DI fica evidenciado pelas marcas indicial (1) e icônica (2). Em (1), destacou-se o verbo introdutor do discurso e em (2), a conjunção integrante.

Lançava o desafio numa fala atrapalhada, com o vago receio de ser ouvido. Ninguém apareceu. E Fabiano roncou alto, (1) gritou (2) que eram todos uns frouxos, uns capados, sim senhor. Depois de muitos berros, supôs que havia ali perto homens escondidos, com medo dele. (p. 78)

            Vemos que essa teoria (TIV), que identifica as marcas dos discursos, pode ser de grande valor nas aulas de sintaxe. O aluno pode ser levado a entender que:
1-    No discurso direto, a fala do narrador aparece em uma oração intercalada de citação. Nesse momento, o professor pode lançar todos os tipos de orações intercaladas, aproveitando a motivação da aula.
2-    No discurso indireto, a fala do narrador, que aparecia em forma de oração intercalada, muda sua classificação sintática para oração principal, seguida da oração subordinada substantiva, normalmente objetiva direta, na reportagem da fala da personagem.

            Com essa demonstração, ficará mais fácil a mudança de um discurso em outro, exigência quase constante de muitas provas de Vestibular, como veremos na questão abaixo, extraída de prova discursiva da UERJ/2004:
UERJ - 2004
A existência de um narrador e de personagens em um texto narrativo possibilita a ocorrência dos três tipos fundamentais de discurso: direto, indireto e indireto livre.

(A) Considere o seguinte trecho que está em discurso direto:
“- Que linda voz!
- Pelo senhor eu já estava no rádio, não é, Seu Alberto

Reescreva-o utilizando discurso indireto.



3-    Discurso indireto livre
            O discurso indireto livre (DIV) faz um registro da fala ou do pensamento da personagem. É considerado, por Catherine Fromilhage e Anne Sancier-Chateau, um espaço enunciativo no qual tem um misto de dois discursos precedentes. O romancista francês Gustave Flaubert é estimado como uma espécie de criador do estilo indireto livre que impõem momentos de subjetividade em Madame Bovary.
            Nas palavras do Mestre Castelar de Carvalho:
O discurso (ou estilo) indireto livre é um terceiro tipo de recurso narrativo, uma espécie de expediente híbrido resultante da conciliação dos dois discursos acima referidos. Trata-se, portanto, de um tipo misto, em que o narrador, em vez de reproduzir ipsis litteris as próprias palavras da personagem (discurso direto), ou de informar o leitor sobre o que ela teria dito (discurso indireto), aproxima-se da personagem e confunde-se com ela, transmitindo a impressão de que ambos falam em uníssono, por isso, às vezes, torna-se um pouco difícil separar a fala da personagem do discurso do narrador. É que a fronteira entre os dois se apresenta, em certos casos, bastante sutil, devido à liberdade formal de que dispõe o narrador, a par da motivação basicamente psicológica inerente ao discurso indireto livre.
Formalmente, o discurso indireto livre é uma espécie de discurso indireto sem elos subordinativos, porém mantendo a feição original da fala ou do pensamento da personagem, com todas as suas implicações de ordem emotiva, como interrogações e exclamações, preservando assim a oralidade ou a enunciação mental subjacentes.

            Em Vidas Secas, por intermédio desse estilo, o narrador traduz para o leitor as falas e pensamentos dos personagens humanos – que ordinariamente falam pouco e que não tinham “nascido para falar certo" (p. 22) – e também de Baleia, o cão da família. Além disso, em algumas passagens o recurso causa uma confusão entre relato do narrador e do personagem e, em outras ainda, o DIV é utilizado pelo narrador para emissão de um comentário.
            A ocorrência do DIL é marcada pelo uso de verbos flexionados no pretérito imperfeito e também de algumas outras marcas como pontos de exclamação e interrogação, ou ainda reticências (que demonstram aquele aspecto emocional da fala mencionado por Castelar de Carvalho). Ainda como marcas indiciais, no romance em tela, o narrador usa interjeições, comentários de outros personagens, como se tivessem ouvido o que ele relatou em DIL, mudança de tempos verbais e outros indícios, que estudaremos a seguir. Ainda acompanhando as palavras de Castelar:


Lembremos que, do ponto de vista expressivo, o discurso indireto livre permite uma narrativa mais fluente, de ritmo e tom mais expressivamente elaborados, com grande efeito estilístico, em virtude da ausência de quês e de cortes e adaptações sintático-semânticas. O elo psíquico que se estabelece entre o narrador e sua personagem, nesse tipo de discurso, faz com que este seja bastante empregado nas narrativas de cunho memorialista ou de fluxo da consciência, como é o caso de Vidas Secas. Como a distinção entre a fala e os estados mentais da personagem e o discurso do narrador é por vez um tanto sutil, o contexto narrativo desempenha papel importante, em se tratando da apreensão do discurso indireto livre.


            Destacamos um trecho do livro, a fim de exemplificar como o contexto narrativo é fundamental para a percepção do DIL.

Capítulo Cadeia – pg. 35-36:
“(Fabiano) Ouviu o falatório desconexo do bêbedo, caiu numa indecisão dolorosa. Ele também dizia palavras sem sentido, conversava à toa. Mas irou-se com a comparação, deu marradas na parede. (1) Era bruto, sim senhor, nunca havia aprendido, não sabia explicar-se. (2) Estava preso por isso? Como era? Então mete-se um homem na cadeia porque ele não sabe falar direito? Que mal fazia a brutalidade dele? Vivia trabalhando como um escravo. Desentupia o bebedouro, consertava as cercas curava os animais – aproveitara um casco de fazenda sem valor. Tudo em ordem, (3) podiam ver. (4) Tinha culpa de ser bruto? Quem tinha culpa?”
Em (1), a fala do narrador apresenta-se como indício de que o trecho (2) seria o pensamento do personagem Fabiano. Naquela frase, o narrador prepara o leitor para entender a indignação do personagem por estar preso sem motivo, relatada em DIL nas frases seguintes (2). Ao usar do recurso do discurso indireto livre, o narrador mescla seu questionamento da realidade nas palavras, nos pensamentos de Fabiano, na forma de perguntas retóricas que ele estaria fazendo a si mesmo, como uma reflexão. Observamos que em (2), a marca indicial de DIL são os pontos de interrogação.
O trecho (3) mostra um pensamento, um comentário interno de Fabiano para o fato de ele ser um homem de família, trabalhador e que isso podia ser visto por qualquer pessoa. Pelo contexto nota-se que essa frase é de enunciação do personagem (significado), mas está inserida no enunciado do narrador (significante). No período (4), fica mais patente o que foi descrito sobre o trecho (2), pois se percebe o narrador falando pelo personagem, como se pudesse falar ao Fabiano, colocando suas ideias na mente do personagem. Ademais, Fabiano era um homem muito simples, “bruto”, sem escolaridade, não tinha lido como, por exemplo, seu Tomás da bolandeira. Logo, como esse tipo de crítica pode ter saído de sua fala? É um questionamento que envolve questões políticas, sociais e histórias sobre quem seria o responsável por uma pessoa não saber ler, escrever, não ter ido à escola. Um tipo de questionamento difícil de ter partido de Fabiano, então, o mais provável é que tenha sido o narrador se expressando, num processo de simbiose com seu personagem de extraordinário efeito estilístico. Nessas duas frases vê-se a mistura da mente do narrador e do personagem: a crítica do primeiro, associada à indignação do segundo.
            A dificuldade para reconhecer o discurso indireto livre está ligada aos seus limites, pois o narrador dispõe de pensamentos ou de sentimentos de certas personagens como se eles fossem os seus próprios criando um duplo sentido. Essas formas de expressão, enfatizadas neste trabalho, reproduzem o pensamento da personagem com o mesmo desconcerto de ideias, de tempo e de ações que abrange a consciência. É como se o narrador testemunhasse o discurso interior da personagem e, de acordo com Catherine Fromilhage e Anne Sancier-Chateau, manifestando sua presença e sua distância. (1996, p.11).
            Segundo Cunha e Cintra (2008), muitas vezes as frases com discurso indireto livre apresentam as emoções do personagem que a estaria dizendo, seu modo de falar regional, devaneios etc., como se pode constatar a seguir.

Capítulo Mudança – pg.10:
“Pelo espírito atribulado do sertanejo passou a ideia de abandonar o filho naquele descampado. Pensou nos urubus, nas ossadas, coçou a barba ruiva e suja, irresoluto, examinou os arredores. (...) Fabiano meteu a faca na bainha, guardou-a no cinturão, acocorou-se, pegou no pulso do menino, que se encolhia, os joelhos encostados ao estômago, frio como um defunto. Aí (1) a cólera desapareceu e Fabiano (2) teve pena. (3) Impossível abandonar o anjinho aos bichos do mato”.

            Os trechos em negrito, nessa passagem, indicam que a frase (3) seria um pensamento de Fabiano, pois expressa os estados emocionais do personagem – “teve pena” (2) e sua “cólera desapareceu” (1) – que são depois explicitados na frase (3). Observamos que existe uma relação semântica de causa e efeito entre as frases (2) e (3), mesmo que não existam as ligações sintáticas comuns a esse tipo de construção (orações no mesmo período, ligadas por conjunção). Na frase (3) a palavra “anjinho” indica o carinho que o pai (Fabiano) tem pelo filho, e não necessariamente o narrador. Logo, esse é mais um indício de que a frase (3) é um exemplo de discurso indireto livre, pensada pelo personagem, mas ditas as palavras pelo narrador.
            Então, é verdade que os indícios são pistas fundamentais na identificação dos discursos relatados, em especial, o indireto livre.
            Segue-se um exemplo de como a TIV pode nos ajudar a estabelecer uma prática de ensino mais razoável que desse conta da identificação de cada um dos tipos de relato de fala. Analisemos a questão da UERJ/2004 que abordou o assunto.

“Calçada naquilo, trôpega, mexia-se como um papagaio, era ridícula.”

Este trecho, embora seja um discurso em terceira pessoa, corresponde à fala do personagem Fabiano e não a um enunciado do narrador.

Retire do texto duas informações que comprovem essa afirmativa.


Vejamos um excerto do texto de Vidas Secas que demonstra as marcas que permitem a identificação do discurso indireto livre.

Tinham discutido, procurado cortar outras despesas. Como não se entendessem, Sinhá Vitória aludira, bastante azeda, ao dinheiro gasto pelo marido na feira, com jogo e cachaça. Ressentido, (1) Fabiano condenara os sapatos de verniz que ela usava nas festas, caros e inúteis. (2) Calçada naquilo, trôpega, mexia-se como um papagaio, era ridícula. (3) Sinhá Vitória ofendera-se gravemente com a comparação, e se não fosse o respeito que Fabiano lhe inspirava, teria despropositado. Efetivamente os sapatos apertavam-lhe os dedos, faziam-lhe calos. Equilibrava-se mal, tropeçava, manquejava, trepada nos saltos de meio palmo.(4) Devia ser ridícula, mas a  (5) opinião de Fabiano entristecera-a muito.











O quadro que desenvolvemos ajuda a dar uma resposta mais segura.

(1) Fabiano condenara
O verbo “condenar” aponta para o discurso de Fabiano, na voz do narrador em (2), principalmente no juízo de valor “era ridícula”.
(2) Calçada naquilo, trôpega, mexia-se como um papagaio, era ridícula
Discurso indireto livre (DIL) – opinião de Fabiano sobre a esposa.
(3)Sinhá Vitória ofendera-se gravemente com a comparação
Se ela se ofendeu com a comparação entre ela e um papagaio, só pode ter ouvido do marido. A personagem não tem contato com o narrador para se ofender com a opinião deste. Esta frase é a melhor marca indicial de que a frase (2) é DIL.
(4) Devia ser ridícula
Esta frase confirma que ela ouviu essa opinião do marido. Também é indicial.
(5) opinião de Fabiano entristecera-a
Esta frase é a confirmação de que foi Fabiano quem disse que ela era ridícula, pois ela se entristeceu. Mais um indício de que a frase (2) é DIL.

            Quando ensinados a proceder desta maneira, usando a TIV para mapear o texto, o aluno se sente mais seguro a dar a resposta.
            Terminaremos esta pequena exposição sobre os discursos relatados em Graciliano com um comentário singular de Castelar.

O discurso indireto livre é uma forma mais expressiva e mais íntima de o narrador apresentar as reações e os estados de espírito da personagem. Condicionando e moldando-lhe o caráter, imagens vivas, percepções, lembranças, catarses verbais e mentais surgem e se manifestam num acaso aparente, mas, na verdade, habilmente manipuladas pelo narrador, através do emprego desse rico processo narrativo. Ressalte-se também a importância do contexto, para que o leitor possa desentranhar do discurso indireto estrito do narrador o discurso indireto livre, porta-voz da personagem, com todas as suas implicações de oralidade e introspecção psicológica subjacentes. Revelando os sentimentos, as angústias e motivações mais íntimas da personagem, enfim toda a sua dimensão humana, tal como acontece com o Fabiano de Vidas Secas, presta-se o discurso indireto livre aos mais altos voos da prosa narrativa, sobretudo na pena de um escritor exímio e universalista, como o nosso Graciliano Ramos.


CONSIDERAÇÕES SOBRE DISCURSO E POLIFONIA

            Escritores modernistas, como Graciliano Ramos, e contemporâneos como José Saramago, inserem dentro da trama narrativa os discursos dos personagens sem distinguir claramente as diferentes vozes, tornando complexa a polifonia, pela dificuldade em se identificarem as vozes dos personagens e do narrador. E a importância de lançarmos o olhar sobre essas formas de discurso relatado reside no fato de se achar possível distinguir melhor os discursos relatados, em especial o indireto livre, presentes em uma narrativa, pela Teoria da Iconicidade Verbal.
            As diferentes formas de discurso relatado apontam, também, para os diferentes gêneros (como cartas, poesias, e romances) e tipos textuais (descritivos, narrativos e dissertativos), dentro dos quais esses relatos podem ser úteis na caracterização das obras. A escolha do tipo do narrador (onipresente ou onisciente) induzirá as escolhas de formas de discursos para a representação dos acontecimentos na vida dos personagens. A trama pode ser veiculada pelas palavras do narrador, das personagens, ou ainda da mistura delas; a personalidade dos personagens pode ser percebida pelo interlocutor pelos gestos e palavras traduzidas pelo discurso direto. Para a análise destes fenômenos parece necessário não somente identificar as sequências textuais, mas colocar em evidência suas conexões, como as passagens de um discurso a outro que podem ser feitas dentro de uma mesma frase.
            É importante que o professor, ao fazer uso da estilística como ferramenta de análise dos discursos relatados, leve em conta todos os elementos da comunicação, a implicação linguística da escolha por um ou outro tipo de discurso, a variação do discurso relatado entre os gêneros textuais, a relação de todos os níveis de língua, observando como eles se articulam uns com os outros e a interpretação dos fatos, com o objetivo de construir um sentido geral para o texto. É importante ressaltar, no entanto, que a interpretação do enunciado literário é individual, pois o fato de emissor e receptor não se encontrarem demonstrará que cada leitor atribuirá um sentido particular ao texto.
            Para Catherine Fromilhage e Anne Sancier-Chateau três eixos devem ser analisados para uma melhor compreensão e interpretação da obra literária: (1) o eixo genérico, expresso pelas relações entre o enunciador/enunciado e o destinatário/receptor; (2) o eixo estético, expresso pelo método utilizado na exploração dos temas escolhidos por uma corrente literária e (3) o eixo individual, em que o analista deve ter em mente a construção de um universo particular, de uma ideologia e de uma estética.

“Com efeito, a maneira de integrar ‘o discurso de outrem’ no contexto narrativo reflete as tendências sociais da interação verbal numa época e num grupo social dado” (BAKHTIN, 1986, p. 18).


            No eixo genérico, como cita Maingueneau (2001, p. 57), os locutores podem ser hierarquizados, no caso do discurso relatado, ou seja, quando um locutor inclui em sua fala as palavras de um outro locutor.
            Bakhtin (2005, p. 184) afirma também que as relações dialógicas são possíveis não apenas entre enunciações integrais (relativamente), mas o enfoque dialógico é possível a qualquer parte significante do enunciado, inclusive a uma palavra isolada, caso esta não seja interpretada como palavra impessoal da língua, mas como signo da posição semântica de um representante do enunciado de outro, ou seja, se ouvimos nela a voz do outro.
            É importante colocar, também, demonstrando mais uma vez a característica dialógica da linguagem e a presença da subjetividade no texto narrativo ficcional, que o discurso do narrador é sempre carregado do discurso do outro: “existe uma dialogização interna da palavra, que é perpassada sempre pela palavra do outro, é sempre e inevitavelmente também a palavra do outro. Isso quer dizer que o enunciador, para constituir um discurso, leva em conta o discurso de outrem, que está presente no seu” (FIORIN in FARACO; TEZZA;CASTRO (org.) 2001, p. 128).
            Nesse contexto teórico, pode-se inferir que tanto o discurso direto quanto o indireto são formas de citação que fazem parte da estrutura do texto narrativo, que, além de adquirir caráter polifônico, pode ser visto como dialógico, pois é a materialidade de microdiscursos dentro de um macrodiscurso.
            Como afirma Bakhtin (1986, p 144),

o discurso citado é o discurso no discurso, a enunciação na enunciação, mas é, ao mesmo tempo, um discurso sobre o discurso, uma enunciação sobre a enunciação. Aquilo de que nós falamos é apenas o conteúdo do discurso, o tema de nossas palavras. (...) Mas o discurso de outrem constitui mais do que o tema do discurso; ele pode entrar no discurso e na sua construção sintática, por assim dizer, “em pessoa”, como uma unidade integral da construção. Assim, o discurso citado conserva sua autonomia estrutural e semântica sem nem por isso alterar a trama linguística do contexto que o integrou.


            O conceito de polifonia é definido por Bakhtin como a presença de várias vozes no discurso. No texto de Vidas Secas, pode-se observar a presença de várias vozes sociais diferentes, como, por exemplo, de Fabiano, Sinha Vitória, o Soldado amarelo, Seu Tomás da bolandeira, o patrão. Estas vozes estão em constante diálogo, ora confrontando-se, ora complementando-se.
            Uma feição importante a ser ressaltada, nas obras de ficção, é que, apesar da presença de todas essas vozes, sempre existirá a presença de uma voz “soberana”: a do narrador, que tem o poder de eleger quais partes da fala de um personagem quer destacar. Por ser dialógica a narrativa, o narrador também participa do diálogo.

Portanto, por maiores que sejam a liberdade e a independência das personagens, serão sempre relativas e nunca se situam fora do plano do autor, que as promove como estratégia de construção dos seus romances, onde as vozes múltiplas dão o tom de toda a sua arquitetônica (BEZERRA in BAKHTIN, 2005, p. VIII).

            Ao se reproduzirem as opiniões dos personagens, mais que informação, há sempre uma demonstração do posicionamento do autor diante do fato exposto, uma vez que se procede a uma nova seleção de termos e outras construções sintáticas diferentes das do autor. Uma das contribuições mais importantes de Bakhtin foi a afirmação de que não se deve estudar um texto isoladamente, porquanto o discurso não é individual, ou porque se constrói entre pelo menos dois interlocutores que, por sua vez, são seres sociais, ou porque se constrói como um “diálogo entre discursos”, ou seja, porque mantém relações com outros discursos (FARACO; TEZZA;CASTRO (org.) 2001, p. 33).
            Ele afirma ainda que “além da realidade da própria personagem, o mundo exterior que a rodeia e os costumes se inserem no processo de autoconsciência, transferem-se do campo de visão do autor para o campo de visão da personagem” (BAKHTIN, 2005, p. 49).
            Dessa maneira, romance polifônico seria aquele em que cada personagem funciona como um ser autônomo com juízo de valor e voz própria.
A voz do herói se estrutura da mesma forma que a voz do autor num romance comum, possuindo independência no todo da obra, “como se soasse ao lado da palavra do autor, coadunando-se de modo especial com ela e com as vozes plenivalentes de outros heróis” (BAKHTIN, 2005, p. 5). Dessa maneira, como é explicado no livro Diálogos com Bakhtin, nos textos polifônicos pode-se notar a presença de várias vozes, além do diálogo, considerado como condição da linguagem e do discurso. A palavra polifonia é empregada para “caracterizar um certo tipo de texto, aquele em que o dialogismo se deixa ver, aquele em que são percebidas muitas vozes, por oposição aos textos monofônicos que escondem os diálogos que os constituem” (BARROS in TEZZA; FARACO; CASTRO (org.) 2001, p. 36).
            Catherine Fromilhage e Anne Sancier-Chateau, no primeiro capítulo do livro Introduction á l’analyse stylistique, discorrem sobre a posição do enunciador com relação ao enunciado com o intuito de analisar a voz do narrador e das personagens, abordando a não-intervenção dentro do narrado, as intervenções do narrador, as intervenções das vozes múltiplas do narrado e os discursos relatados. Discorrem também sobre a posição do interlocutor, a fim de explicar os princípios da pragmática, interpretação e instâncias receptoras, exploração estilística e perspectivas metodológicas para a análise estilística. A linguagem escrita procura criar um estado psíquico de emoção estética, pois é desprovida dos recursos que abrangem a comunicação por meio da parole como o timbre da voz e da entonação. E é por isso que a linguagem escrita deve ser mais estilisticamente trabalhada.
A abordagem estilística [...] detecta certas particularidades da linguagem escrita (semânticas, lexicais, sintáticas, sonoras,
morfológicas) [...] é preciso ter algum conhecimento de gramática, de estilo, ou, quando menos, ter boa disposição para adquirir estes e outros conhecimentos correlacionados, como o de estética, o de história literária, e até biográfico (RODRIGUES, in BONNICI; ZOLIN, 2005, p. 123-124).

CONSIDERAÇÕES FINAIS


            Esperamos que, com essas demonstrações do levantamento de pistas icônicas e indiciais no estudo das vozes do texto, o professor possa orientar a compreensão do texto, dirigindo o rumo do raciocínio do leitor em relação ao discurso relatado. E é isso que se espera do estudante: que ele seja capaz de identificar as vozes dos enunciados segundo sua relevância, inclusive observando a iconicidade das classes gramaticais, das funções sintáticas, dos sinais de pontuação a partir do que ele poderia compreender melhor as mensagens lidas.
            Por conseguinte, a instrução linguística hodierna deve prestigiar a observação da iconicidade dos textos, em prol do entendimento e da aquisição dos mecanismos da estruturação linguística. Desse modo, a aula dispensa a memorização porque passa a ser assimilada; e o falante, dotado da habilidade de identificar o que subjaz à escolha de um ou outro discurso relatado, poderá entender melhor a polifonia e construir seus próprios enunciados de forma consciente, com reflexão.
            Faz-se necessário repensar até que ponto o ensino da língua deve ser emoldurado apenas pela norma culta e se ater aos limites dos elementos constitutivos da frase, com instruções engessadas, não considerando elementos estilísticos de autores consagrados da nossa literatura. Esse tipo de ensino mostra-se inadequado em relação às novas tecnologias da linguagem, bem como aos estudos dos gêneros textuais. Surge a preocupação em modernizar as aulas de Língua Portuguesa (L1) de forma a produzir uma aprendizagem mais significativa da língua, contemplando a linguagem de que se faz uso, estabelecendo relações entre os vários elementos de um universo simbólico e relacionando o conhecimento elaborado (o saber idiomático) com os fatos do cotidiano, vividos pelo sujeito da aprendizagem ou por outros sujeitos.
Dessas abordagens, resulta o fato inconteste de que não se pode afastar o aluno da aquisição de conteúdos de sistematização da língua. O que se deve buscar, porém, é a relevância dos conteúdos ensinados para que eles tenham sentido para o sujeito dentro de seu contexto. Para que o aluno veja sentido na aprendizagem de fatos da língua e linguagem, é preciso demonstrar-lhe e convencer-lhe acerca da importância de adequação do dizer ao contexto interacional. Para tanto, cumpre dar-lhe as ferramentas oferecidas pela TIV, com as quais ele poderá jogar com as peças da língua em favor de sua representação como sujeito; do foco na ação, enfatizando uma ou outra estrutura linguística. Tudo isso examinado, inicialmente, em textos familiares ao estudante, depois com textos da literatura, fará com que entenda as astúcias da estruturação linguística. Logo, é necessário modificar o cenário das aulas de Português.




















REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

AZEREDO, José Carlos de. Gramática Houaiss da Língua Portuguesa. 2ª ed. São Paulo : Publifolha, 2008.

BAKHTIN, Mikhail. Marxismo e Filosofia da Linguagem. São Paulo: Hucitec, 2004.
CASTELAR DE CARVALHO. O Discurso Indireto Livre em Vidas Secas, de Graciliano Ramos. Disponível em   http://www.filologia.org.br/abf/volume3/numero1/05.htm .
CUNHA, C. F. da & CINTRA, L. Nova Gramática do Português  Contemporâneo.  2a.ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1985.
FARACO, Carlos Alberto; NEGRI, Lígia. O falante: que bicho é esse, afinal?.
Curitiba,1997.
FROMILHAGE, Catherine; CHATEAU, Anne Sancier. Introduction á l’analyse
stylistique. Paris : Dunod, 1996.
KOCH, Ingedore G. Villaça. Desvendando os segredos do texto. 2ªed. São Paulo : Cortez, 2003.
LIMA, C. H. da Rocha Gramática normativa da língua portuguesa, 29a. ed., Rio de Janeiro: José Olympio, 1988.
MAINGUENEAU, Dominique. Elementos de lingüística para o texto literário. São Paulo: Martins Fontes, 1996.

MAINGUENEAU, Dominique. Análise de Textos de Comunicação. São Paulo: Cortez, 2001.

MARCUSCHI, Luiz Antônio. Fenômenos da linguagem: reflexões semânticas e discursivas. Rio de Janeiro: Lucerna, 2007, pág. 146 – 168.

NÖTH, Winfried. Panorama da Semiótica no Século XX. De Platão a Peirce. São Paulo: Annablume, 1995.
RAMOS, Graciliano. Vidas Secas. 113ª ed. São Paulo : Record, 2010
SIMÕES, Darcilia. Iconicidade verbal. Teoria e Prática. Edição online. Rio de Janeiro: Dialogarts: 2009.


[1] Usamos dados apurados em pesquisa realizada pelos graduandos em Letras da UERJ/2010: Bárbara Romana dos Santos de Souza e Ulisses da Silva Gomes.











02- Artigo sobre o ensino da Gramática, apresentado por Rosane Reis em Évora, Portugal, 2009.


NOVOS CAMINHOS PARA O ENSINO DA GRAMÁTICA
 Rosane Reis de OLIVEIRA [1]

RESUMO: A proposta teórico-metodológica que se propõe com a pesquisa que deu origem a este artigo é otimizadora da aprendizagem das regras gramaticais, uma vez que opera nos moldes da iconicidade verbal (SIMÕES, 2009), teoria que, comprovadamente por projetos vários já concluídos (dentro e fora da Universidade do Estado do Rio de Janeiro - UERJ), vem tornando menos subjetiva a descrição da estruturação linguística.
Essa é uma meta abordada neste trabalho, que sugere a implantação de uma metodologia nova e especial nas aulas de língua portuguesa (L1) e que exige um olhar ampliado e obrigatório do docente pelos caminhos das novas tecnologias da linguagem, para sustentar uma teoria gramatical mais produtiva ao desenvolvimento das capacidades de leitura que irão auxiliar os discentes a produzir seus textos escritos com mais eficiência na língua de prestígio e, consequentemente, ler e compreender textos com maior segurança e precisão.
Nesta oportunidade, demos enfoque ao estudo do verbo, em suas particularidades mórficas e sintáticas, por entender que este precisa ser mais minucioso, uma vez que é signo estruturante da expressão linguística.
A vinculação do ensino da gramática à teoria da iconicidade verbal foi motivada na necessidade de reformulação da prática de ensino de língua portuguesa (L1), procurando considerar a língua em uso dos falantes brasileiros.

PALAVRAS-CHAVE: Ensino de gramática; iconicidade verbal;novas tecnologias


INTRODUÇÃO
Um ensino voltado à apreensão do saber idiomático pelas novas tecnologias de linguagem e seus diferentes códigos, exige do docente um alargamento de sua fundamentação. O ensino tradicional da norma gramatical não mais se basta. É preciso articular o conteúdo normativo (que é indispensável ao bom desempenho comunicativo-expressional dos sujeitos) às instruções de ciência — a Semiótica — que vem ganhando destaque no contexto da pesquisa internacional, dada a sua relação com os processos cognitivos. No âmbito do ensino e da aprendizagem, a psicolinguística tem unido esforços com as semióticas, buscando melhor entender e explorar os mecanismos de raciocínio implicados na aprendizagem da língua, sobretudo, no uso culto (ou padrão).
No ensino correspondente às novas tecnologias do mundo contemporâneo, não se deve levar em conta apenas a capacidade do aluno para assimilar e acumular informações, senão como utilizá-las em contextos adequados, interpretando códigos e linguagens e valendo-se dos conhecimentos adquiridos para a tomada de decisões autônomas e socialmente relevantes. Nesse sentido, priorizamos em nossa proposta, o raciocínio em detrimento da “decoreba”.
O modelo de aprendizagem que se propõe enfatiza a mobilização das estruturas mentais por meio das quais o conhecimento é continuamente construído e reconstruído. Não se abandona a memória que é importantíssima na constituição das estruturas mentais e na aquisição dos domínios e conteúdos; todavia, isoladamente (pela simples memorização) não consegue preparar um sujeito capaz de compreender o mundo em que vive, particularmente num contexto de aceleradas mudanças sociais, econômicas e tecnológicas.
Aqui se impõe esclarecer que a descrição linguística que se combina com a metodologia foi extraída da Teoria da Iconicidade Verbal (SIMÕES, 2009). O aporte teórico sistêmico-funcional de M. A. K. Halliday (1984) é a matriz linguística que compõe as bases conceituais deste projeto.
Vale acrescentar que nossa prática didática cotidiana no ensino médio tem testado e constatado a eficiência do argumento semiótico, para explicar a construção do signo linguístico; em especial, a teoria da iconicidade verbal.


PELOS CAMINHOS DA SEMIÓTICA
Fazendo uma leitura semiótica da estruturação sintática das orações, vemos uma possibilidade real de orientar o ensino da gramática pela iconicidade diagramática. Com esse subsídio semiótico, explicamos a estruturação sintática da frase a partir do verbo. Tomá-lo como bússola do arranjo das peças icônicas (representativas, fundadas na similaridade) e indiciais (indutoras, fundadas na contiguidade), cuja combinação produz as imagens semântico-pragmáticas contribui seguramente para obter os caminhos que subsidiarão a leitura e a compreensão das frases e, por conseguinte, do texto.

Trabalhar com a teoria da iconicidade no ensino da gramática nos proporciona:
·         apresentar uma visão mais organizada dos fatos gramaticais que em L1, a partir da identificação de valores icônicos ou indiciais, que possam orientar o entendimento e o emprego adequado das formas gramaticais, segundo o projeto comunicativo-textual;
·         elaborar uma proposta de ensino de gramática, então demonstrado no estudo morfossintático e semântico do vocábulo com vista ao desenvolvimento de uma prática didática de L1 integrada não só com o uso empírico da língua, mas também com os usos instrumentais da língua no estudo das demais disciplinas escolares, uma vez que todas demandam compreensão gramatical, competência de leitura com compreensão e de produção textual.

Como afirma Halliday (1973:65), “ a linguagem é como é por causa das funções que ela desempenha na sociedade”, por isso buscamos provar como a abordagem semiótico-funcional abre espaço para uma leitura e produção textuais para além das questões meramente gramaticais.

REFLETINDO O ENSINO DA LÍNGUA
A língua portuguesa ensinada nas escolas não é a mesma língua utilizada pelos alunos no falar cotidiano. A língua, muitas vezes desprestigiada e estigmatizada, que os sujeitos levam para a sala de aula, gera, nos aprendizes, de um modo geral, pré-conceitos como o de não saberem a língua nacional e o de julgarem-na muito difícil.
Para constatar essa afirmação, ocorrências de desvios da norma padrão foram levantados em avaliações objetivas e redações feitas por alunos do ensino médio, para verificar as influências da língua falada na resolução de questões de provas e na produção textual.
A partir da observação dos dados da pesquisa, propomos o ensino da gramática pela teoria da iconicidade verbal (vocábulos de base icônico-diagramática sintagmática) para promover a facilitação da aprendizagem dos mecanismos gramaticais. Isso porque algumas formas linguísticas atuam como ícones ou índices de categorias ou mecanismos gramaticais, ou seja, palavras e expressões que funcionam como âncoras de apoio à aplicação das regras de concordância, por exemplo. Ensinar os fatos da língua ajustados pelos valores icônicos e indiciais das formas da língua consolida uma aprendizagem pela assimilação das estratégias de estruturação verbal. O professor que quiser se alinhar ao ensino gramatical de base semiótica deve ensinar os alunos a ler semioticamente a estruturação sintática dos períodos e, consequentemente,  dos textos que servem de contexto para o entendimento do propósito comunicativo do enunciador.  Com essa estratégia didática, o sujeito aprende a seguir a iconicidade diagramática sintagmática, identificando alguns vocábulos como pistas icônicas e indiciais[2] por apresentarem marcas específicas cujas combinações conduzem à identificação de categorias e funções dos vocábulos, para que se possa chegar aos valores gramaticais exigidos na construção sintática dos períodos. Algumas dessas pistas facilitam a identificação de marcas gramaticais orientadoras. Outras, no entanto, por sua baixa iconicidade, acabam tornando-se pistas desorientadoras, provocando dúvidas quanto à utilização, flexão, forma ou classificação. Vejamos o que dizem Simões e Dutra sobre iconicidade:
A iconicidade, no processo da leitura e da redação, a nosso ver, pode manifestar-se de dupla forma: a) como alta iconicidade – qualidade por meio da qual o texto orienta o leitor à produção de sentido em função da apresentação estratégica de pistas de leitura; b) como baixa iconicidade – qualidade por meio da qual o texto se torna opaco, porque não oferece pistas suficientes ou eficientes para o desenrolar da leitura. Convém esclarecer que a alta iconicidade tanto se presta à construção da eficácia quanto à da falácia textual. Nesta o leitor é driblado pelas pistas do texto; naquela, o leitor é conduzido por elas. (Simões & Dutra, 2004: 41).

APLICAÇÃO DA ICONICIDADE VERBAL
 Daqui em diante, dentro das abordagens teóricas, tecem-se comentários pontuais sobre algumas dessas pistas. Trataremos, nesta oportunidade, do caso específico da voz passiva.
Como são regras muito complexas, um olhar cuidadoso nas palavras dos teóricos se faz necessário.
O problema das vozes não pode ser resolvido de forma simplória. Trata-se de problema complexo que tem sido muito mal estudado e ainda pior apresentado. (MACEDO, 1987, p. 159)

Como bem observa MACEDO, a questão da voz passiva tem sido simplificada demais, o que pode determinar o insucesso no reconhecimento das orações de verbo passivo das de verbo ativo. Essa dúvida pode implicar o uso inadequado da flexão do verbo nas orações de passiva sintética, já que o falante não reconhece o sujeito paciente.
É prática comum dos falantes da língua portuguesa a utilização da construção passiva sintética como modo de indeterminar o sujeito. Desvendar os motivos que os levam a essa prática linguageira abre caminhos para uma mudança de comportamento dos professores da língua portuguesa quanto ao ensino da Gramática. A fim de facilitar a apreensão de assunto tão complexo, propõem-se algumas considerações sobre o aspecto da voz verbal que veremos a seguir.
As frases de voz passiva possuem uma atividade ou processo ativo em que se reconhece um agente sem as atribuições de tema ou sujeito. Os verbos na chamada voz passiva adquirem uma forma específica capaz de integrar o agente ao predicado e destacam o termo objeto direto da voz ativa, transformando-o em tema e, portanto, ponto de partida da ação verbal. Essa modalidade de voz passiva reduz o sujeito da voz medial reflexiva[3] ao que nele há de paciente.
No domínio das línguas indo-européias, a voz passiva estabeleceu-se na forma reflexivo-pronominal, trazendo para as línguas românicas uma confusão mental entre as duas interpretações possíveis retiradas de frases na forma medial reflexiva, cuja indistinção mórfica confunde-se na oposição semântica com a forma passiva. Daí, em português, haver problemas de identificação de reflexividade ou passividade em frases como Abre-se a porta, Quebrou-se o tinteiro e Ouviram-se pessoas, como aponta Mattoso (1981, p. 231). A dupla interpretação que nos aponta o autor é marcada pela partícula pronominal, uma forma de fazer a distinção mórfica das frases passivas.
Assinala-se, nas línguas românicas, uma tendência à impessoalização do sujeito nas frases passivas com a integração do sujeito ao predicado. No português popular, a falta de concordância entre o nome e o verbo nestes casos, deixando-o na P3, evidencia essa tendência. Esse é o caso de vende-se carros, por exemplo, encontrado nos principais jornais da cidade nas páginas dos classificados.
Mattoso (1981, p. 232) explica a origem da confusão entre frases passivas pessoais e impessoais pela presença do pronome num tipo de frase “que omite o agente tanto nos verbos transitivos quanto nos intransitivos, elevando o paciente a sujeito nos verbos transitivos (norma literária) ou não (norma popular)”. Assim contrastam-se as frases de forma passiva impessoal - vive-se, pensou-se e vende-se carros (pop.) - com as de forma passiva pessoal – alugam-se casas (em identidade mórfica com a voz reflexiva). Essa confusão se explica melhor quando fazemos a leitura semiótica das frases. Como distinguir um caso do outro se a palavra em foco, o pronome se, demonstra um caso de baixa iconicidade (de difícil compreensão)? Isso se dá por estar-se diante de um vocábulo que pode atualizar-se em valores distintos. Para extinguir o problema, anuncia-se outra marca para servir de pista para a identificação do mecanismo em questão: a transitividade verbal. Como só existe voz passiva de verbos transitivos diretos, a simples presença de uma preposição exigida pela regência verbal já elimina a possibilidade de concordância do verbo com o termo subsequente, deixando-o flexionado em P3[4]. Esse tipo de construção impessoal é normal com verbos intransitivos ou transitivos indiretos, uma vez que a ausência de um objeto direto no predicado não permite a transformação da voz ativa em passiva por meio da topicalização do termo paciente em função de sujeito. Apresentam-se, como exemplos dessas construções, as frases a seguir: morria-se de amor antigamente e precisa-se de dinheiro .
Para expressar a passividade do sujeito, as línguas românicas usam também uma construção perifrástica que foi adotada pela nossa gramática como voz passiva analítica ou verbal. O agente é apresentado no predicado numa estrutura de oposição de termos já criada na voz ativa:
1.                sujeito-agente + verbo + objeto-paciente = voz ativa
2.                sujeito-paciente + verbo + agente da voz passiva = voz passiva
Convém ressaltar que a voz passiva valoriza mais o processo que o próprio agente, pois este fica omitido (na voz passiva pronominal) ou incluído no predicado (na voz passiva de construção perifrástica).
Na língua portuguesa, a voz passiva (stricto sensu, ressalvemos) é um fato especial dos verbos transitivos diretos, em que o paciente (objeto direto da ativa) é posto em evidência (topicalização) e, portanto, ponto de partida da frase. Figura, por isso, como sujeito, enquanto o ser que seria, a rigor, o sujeito agente do verbo na voz ativa é relegado a um plano inferior ou é ignorado. Mattoso Câmara Jr.(1981, p. 233) não se satisfaz com essa interpretação que “não abarca sequer os nossos próprios fatos portugueses” e continua:
Consequentemente, vários pesquisadores têm chegado à conclusão de que, em muitas e distintas línguas do globo, só há na realidade a voz passiva, porque é o paciente, e não o agente, que é sistematicamente arvorado em sujeito da frase.
Vale observar a teoria de Meillet para dar à voz passiva outro alcance e conteúdo. Para Meillet (1921), a oposição básica é entre voz ativa e voz impessoal. Em outros termos, o processo: 1) pode ser referido a um ser preciso, que é a causa, ou motivo ou ponto de aplicação (sujeito); 2) pode ser apresentado em si mesmo, independentemente de um nome ou ser que lhe servia de marco de referência. Daí venha talvez a dificuldade do sujeito em identificar a voz passiva pronominal da ativa com sujeito indeterminado pela partícula se.
Para Mattoso (1981, p. 233), a frase impessoal assim compreendida pode assumir três principais variantes mórficas:
1) a da forma ativa pura, sem sujeito explícito ou implícito, como é o caso do nosso existencial haver. A ausência de sujeito é indicial.
 2) a impessoalidade caracterizada na forma de nome do ser a que se refere a ação e
3) a impessoalidade expressa por um morfema verbal, como o sufixo -r-, por exemplo.
Nesses casos, a ausência do termo sujeito é índice para a impessoalização do verbo.
Desse último tipo de voz impessoal sai uma voz passiva de sujeito-paciente, quando nos verbos transitivos se passa a dar a forma nominativa ao ser paciente. E conclui:
É esta a teoria de Meillet sobre a voz passiva latina. Para ele tratou-se de início de uma voz impessoal, que só tinha 3ª pessoa do singular. (Mattoso Câmara,1981, p. 233)
É exatamente aqui que o desvio da norma gramatical em relação à concordância da voz passiva pronominal encontra interseção com a história da língua: a tendência popular a impessoalizar o sujeito nessa voz decorre da sua natureza semântica, em que o agente ou é desconhecido ou não se quer retratar. Portanto, o pronome se acaba sendo um signo indicial de impessoalização, quer na situação de índice de indeterminação do sujeito, quer na de pronome apassivador. Para explicar esse evento linguístico, recorramos a Mario Barreto que o caracteriza como “cruzamento sintático”.
Por cruzamento sintáctico, processo também conhecido pelo nome de fusão ou contaminação, e que é uma forma, um aspecto da ANALOGIA, explicam-se as notáveis construções de que tratamos no presente capítulo. A fusão ou contaminação define-a o douto hispanista e insigne filólogo Dom Rufino José Cuervo como consistente em que, "oferecendo-se simultâneamente ao entendimento dois termos ou expressões sinónimas, em vez de escolher uma delas formamos outra mesclando os elementos de ambas." As duas construções de valor sensivelmente idêntico acabam por se combinar e fundir uma na outra. (Barreto. 1964, p.250) [mantivemos a grafia original]
Infelizmente, as gramáticas escolares da língua portuguesa abordam de maneira muito sucinta o assunto categoria de voz. Apenas distinguem, por exemplo, voz passiva analítica de sintética pelas marcas morfológicas: se há o auxiliar de estado seguido de particípio do verbo principal ou se há pronome apassivador. Há muito o que se discutir, no entanto,  sobre as formas de expressão que depõem o sujeito na intenção de enfatizar o objeto passivo. No primeiro caso, o português apresenta o verbo principal no particípio a que se junta um auxiliar temporal (ser, estar, ficar), conforme explicita Evanildo Bechara em Lições e Português pela Análise Sintática (2003). Ele observa que, na forma analítica, o verbo pode ser conjugado em qualquer pessoa e vem normalmente acompanhado de agente da passiva: 1) Fomos procurados pelos amigos. 2) O artigo estava assinado pelo chefe. 3) O colega ficou prejudicado pelo irmão. No segundo caso, ao verbo na forma ativa se junta o pronome átono se, caracterizando o que ele chama de voz passiva pronominal. Bechara acrescenta que o sujeito do verbo na voz passiva pronominal é geralmente um nome de coisa, um ser inanimado, incapaz de praticar a ação expressa pelo verbo e aparece normalmente posposto ao verbo. Neste último caso, o agente da passiva geralmente não vem expresso. Essa talvez seja a outra explicação para que a prática linguageira não encontre nestas construções a necessidade de identificação de um sujeito agente e, portanto, utilize o verbo na sua forma impessoal, ou seja, na P3, deixando clara a ideia de que o que configuraria, na norma culta, o sujeito paciente seria tão somente o alvo da ação verbal.
Ainda Bechara (2005, p. 222) nomeia a passiva de duas maneiras, um pouco distintas das que foram consagradas pelos gramáticos da língua portuguesa. Ele chama de voz passiva apenas a forma analítica, ou seja, a construção perifrástica com os auxiliares temporais. E nomeia de voz reflexiva de sentido passivo a chamada passiva pronominal. Enfatiza de forma bastante esclarecedora que há duas maneiras distintas de diferenciá-las:
1 - a voz passiva (analítica) pode apresentar  o verbo em qualquer pessoa, ao passo que a reflexiva de sentido passivo (pronominal) só se constrói na 3ª pessoa com o pronome se (apassivador):
                     Eu fui visitado pelos parentes.
                     Nós fomos visitados pelos parentes.
2 - A passiva (analítica) pode seguir-se de uma expressão que denota o agente da passiva, enquanto a reflexiva (pronominal), no português contemporâneo, o dispensa:
                     Eu fui visitado pelos parentes.
                     Aluga-se a casa. (não se diz: aluga-se a casa pelo proprietário)
O modo como se decide usar uma ou outra construção depende necessariamente do propósito comunicativo do enunciador. Se o enunciador pretende esclarecer ao interlocutor quem é o agente do processo verbal, então deve optar pela construção analítica. Esta é uma construção icônica, porque o verbo auxiliar de passiva só aparece em construções de passividade. Ele é a marca de voz mais representativa. Tanto é verdade que dizemos que um verbo está na voz ativa quando não possui nenhuma marca de voz, ou seja, a voz ativa não possui marca icônica, mas indicial. No entanto, se a intenção é obliterar o agente, a melhor redação será a de passiva pronominal. Não se deve desconsiderar, neste caso, que não haverá signo icônico, mas indicial (o pronome se como clítico de um verbo transitivo direto).
            É preciso também levar em conta que a escolha por uma ou outra formulação de frase pela categorização de voz verbal, se dá não só no aspecto sintático, mas igualmente no semântico[5].
A rigor, somente os verbos transitivos diretos admitem construção de voz passiva. Isso porque o objeto direto da ativa passa a sujeito da passiva, e o sujeito da ativa, a agente da passiva. É importante observar que o tempo verbal da voz ativa deverá ser repetido pelo verbo auxiliar da voz passiva.
Exemplo:

            Seria necessário que o professor deixasse claro para o aluno que alguns verbos transitivos diretos repugnam a construção passiva por mera questão de uso, independente de aplicação na norma culta. Em geral, são verbos em cuja significação não repousa nenhuma atividade para que se possa depreender um sujeito ativo, i. e., já possuem sentido passivo (aguentar, sofrer, querer, poder). Essa ausência de atividade é, por si só, um signo indicial para a idéia de que tais verbos não participam de construção em voz passiva. Assim, não se diz: O doce é querido por mim, Tudo é podido pelos netos, Uma grande perda foi sofrida por mim’, mas tão somente Eu quero o doce, Netos podem tudo, Sofri uma grande perda.
Como conclusão a esses estudos, aliados aos resultados das pesquisas com as gravações e as redações dos alunos, afirma-se que a frequência linguageira do emprego de uma construção pronominal com verbos transitivos indiretos e intransitivos (Precisa-se de enfermeiras para C.T.I. / Vive-se bem no campo / Trata-se de uma piada.) levou o falante a estender esse uso aos verbos transitivos diretos empregados intransitivamente ou com objetos preposicionados (Estuda-se muito nesta escola; Comeu-se do bolo). Na evolução da língua, passou-se, então, a usar o verbo na P3 seguido do pronome se, em construções que a gramática latina nomeou de passiva impessoal: passiva quanto à forma, impessoal porque desprovida de sujeito. Essa terminologia, segundo Kury (1989, p.182), parece não ter bom senso. Para ele, não é possível que uma forma linguística seja ao mesmo tempo impessoal, isto é, sem sujeito, e de sujeito indeterminado. No entanto, se observarmos as frases Precisam de enfermeiras e Precisa-se de enfermeiras, vemos claramente dois propósitos comunicativos diferentes no que se refere à identificação do sujeito. Na primeira frase, sabemos que há um sujeito agente, mas que aparece diluído no conjunto de pessoas envolvidas no processo cuja informação está no verbo. Ele existe, mas não se pode ou não se quer identificar. A segunda frase apresenta um caso distinto, pois o enunciador se prende à própria ação expressa pelo verbo, excluindo da informação a importância da identificação de um sujeito agente. Essa seria a explicação plausível para que se nomeassem as frases de passiva impessoal quando com uso do pronome se.
Embora haja nomenclaturas diferentes para as construções frasais com verbo associado à palavra “se” (voz passiva sintética e voz ativa com índice de indeterminação do sujeito), os desvios de concordância são frequentes. A flexão inadequada dos verbos dessas frases deve-se à palavra “se” que acaba sendo um signo desorientador por sua baixa iconicidade sintagmática.  A posição do sujeito-paciente em frases com verbo na passiva pronominal torna-se um signo desorientador, visto ser idêntica à das frases com verbo na voz ativa acrescido de índice de indeterminação do sujeito. Isso pode ser fato determinante para a confusão do falante no momento de realizar a concordância. O sujeito da passiva é confundido, por seu papel de paciente e pela posição posterior ao verbo, com o objeto direto. A partir desse evento, torna-se natural que se realize a concordância de forma a indeterminar ou até mesmo impessoalizar o sujeito.
Assim, essas construções do registro coloquial aqui levantadas e discutidas parecem, aos olhos leigos, servir ao propósito de tornar a linguagem mais elevada, mais impessoal e, por vezes, mais formal. Dessa maneira, acabam tornando-se rotineiras e preferidas pelos falantes de um modo geral. E, como a linguagem é a própria afirmação de identidade, essas formas equivocadas de uso da voz passiva passam a ser constatações de que seus usuários não dominam efetivamente o discurso formal.
O professor que quiser fazer uso desse desvio como forma de despertar o interesse do seu aluno para as curiosas incorreções da mudança da linguagem tem material farto de análise em quase todas as páginas dos jornais, revistas e cartazes espalhados por toda a cidade, que se prestam à difusão de informações, ao mesmo tempo que exercem o constante avivamento da linguagem humana.

CONCLUSÃO
Faz-se necessário repensar até que ponto o ensino da língua deve ser emoldurado apenas pela norma culta e se ater aos limites dos elementos constitutivos da frase, como propunha a escola tradicional. Esse tipo de ensino está disforme em relação às novas tecnologias da linguagem e aos gêneros textuais, indicadores de sentido.
Felizmente, as pesquisas modernas enfatizam um procedimento didático e pedagógico que parte da realidade da linguagem em uso para a exploração de conteúdos gramaticais vários, associados como ferramentas combinadas na compreensão da mensagem.
Assim, as aulas atuais devem ter suas lições de gramática formuladas a partir de um texto motivador. Como nem sempre esse texto é de um mesmo gênero, o professor de língua, nas palavras de Travaglia (2004 pp.115-116), deve trabalhar com textos pertencentes a categorias distintas (tipos, gêneros, modalidades, espécies) e implementar um estudo dos recursos linguísticos e de sua atuação na constituição e funcionamento da língua para a comunicação.
Com as novas propostas, vinculando a Gramática à Linguística Textual, surge a preocupação em adequar as aulas de Português ao novo modelo, que aponta para uma aprendizagem mais significativa da língua, contemplando a linguagem de que se faz uso, estabelecendo relações entre os vários elementos de um universo simbólico, relacionando o conhecimento elaborado (o saber idiomático) com os fatos do cotidiano, vividos pelo sujeito da aprendizagem ou por outros sujeitos.
Os novos rumos da educação, que se instituem nas diretrizes curriculares nacionais, trazem à baila o desenvolvimento de habilidades e a aquisição de conhecimentos que conduzem às competências[6] em vários campos do saber. Para resolver situações complexas, o primeiro recurso exigido é o conhecimento de conteúdos. Por exemplo, se a situação complexa for interpretar um texto, é preciso que o sujeito tenha o conhecimento específico relativo às abordagens do texto: modo de organização discursiva, gênero textual, isotopia, intertextualidade, inferências, interlocução etc. Se a situação for observar um desvio de norma, ele deve ter disponíveis os conteúdos específicos ligados à regência, concordância, pontuação, crase, acentuação etc.
Dessas abordagens, resulta o fato inconteste de que não se pode afastar o aluno da aquisição de conteúdos de sistematização da língua. O que se deve buscar, porém é a relevância dos conteúdos ensinados para que eles tenham sentido para o sujeito dentro de seu contexto. Desenvolver a compreensão dos mecanismos da estruturação linguística traz a oportunidade de o sujeito assimilar o conteúdo de forma coerente e não mais precisar perder tempo memorizando listas infinitas de regras e suas exceções.
É, pois, inegável o consórcio entre a rede sintática e o fio condutor da mensagem na constituição da frase e, consequentemente, do texto. Seria estratégia produtiva a aplicação das categorias semiótico-diagramáticas, que são sintáticas, na explicação das funções sintáticas em relação com as imagens que resultam da concordância, por exemplo. Essas seriam estratégias que iriam testar a iconicidade do texto, a partir de sua potencialidade indutora de significados. Não é, contudo, o que em geral se faz na sala de aula, onde se reduz o ensino da análise sintática à distinção de funções e à memorização de fastidiosa nomenclatura (completamente desnecessária ao reconhecimento da forma adequada).
Mais importante, também, do que decorar as regras gramaticais  é captar os nexos que integram os elementos constitutivos do texto, por procedimentos diversos: identificar (1) relações de lógica (causa e efeito, agente e paciente, tema e rema), (2) traços característicos das orações adjetivas, (3) elementos de recuperação e de encadeamento, (4) processos circunstanciais expressos nas expressões e orações adverbiais, etc.
Há de reconhecer-se, então, que será possível recuperar, com esses procedimentos, a dimensão da língua em funcionamento ─ dimensão que não pode ser outra senão a resultante da harmonização dos elementos sintáticos no processo de organização textual.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BARRETO, Mário. Novíssimos estudos da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Livraria Francisco Alves, 1924.

BECHARA, Evanildo. Lições de Português pela análise sintática. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2003.
_____. Moderna Gramática Portuguesa. Rio de Janeiro: Editora Lucerna, 2005.

CAMARA JUNIOR, Joaquim Mattoso. Princípios de Linguística Geral. Rio de Janeiro: Padrão Livraria Editora, 1989.
_____. Dicionário de Linguística e Gramática. Petrópolis-RJ: Vozes, 1981.

KURY, Adriano da Gama. Lições de Análise Sintática. Rio de Janeiro: Editora Fundo de Cultura, 1961.
_____. Para falar e escrever bem o português. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,1989.

HALLIDAY, M. A. K. & HASAN, H. Language, Context and Text: Aspects of language in a social-semiotic perspective. Oxford: Oxford University, 1989.

HALLIDAY, M. A. K. Explorations in the Functions of Language. London: Edward Arnold, 1973.

MACEDO, Walmirio. Elementos para uma estrutura da língua portuguesa. Rio de Janeiro: Presença, 1987.

MEILLET, A. Linguistique Historique et Linguistic Générale,  Paris, 1921.

MORETTO, Vasco Pedro. Prova, um momento pivilegiado de estudo, Rio de Janeiro: Editora DP&A, 2002.

SIMÕES, Darcilia. Iconicidade e verossimilhança. Semiótica aplicada ao texto verbal. Edição digital. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2007.
_____. Teoria da iconicidade verbal. Rio de Janeiro: Dialogarts, 2009.
______. & Vânia Lucia R. DUTRA. “A iconicidade, a leitura e o projeto do texto”. In Linguagem & Ensino. [ISSN 1415-1928]. Volume 7. Número 2. Jul/Dez. 2004. Pelotas: UCPel.

TRAVAGLIA, Luiz Carlos. “Tipologia textual, ensino de gramática e o livro didático” In: (org.). Língua e Cidadania: novas perspectivas para o ensino. São Paulo: Contexto, 2002.




[1] Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ)– Instituto de Letras – Aluna especial do Programa de Pós-graduação (Doutorado) em Letras; Docente do Sistema Elite de Ensino; Membro do Grupo de Pesquisa Semiótica, Leitura e Produção de Textos (SELEPROT). Coordenadora do Sistema Light Speed (correção de textos acadêmicos na Web) Contato: rosanereis.prof@gmail.com; redacaolightspeed@gmail.com


[2] Seguimos a orientação de Simões (2007) que entende por signos icônicos os representativos, fundados na similaridade, de fundo analógico e por indiciais os indutores, fundados na contiguidade, consecutivos.

[3] Mais adiante, encontrar-se-á uma explicação mais detalhada da voz medial.
[4] Usamos a terminologia de Mattoso para as pessoas gramaticais, em que P1, P2, P3, P4, P5 e P6 se referem às primeira, segunda e terceira pessoas do singular e plural, respectivamente.
[5] Bechara (2005, p. 222) enfatiza a necessidade de distinguir voz passiva de passividade. Na frase O menino levou uma surra do pai, pode-se ver nitidamente a passividade do sujeito diante do sentido passivo do verbo, ainda que indicado por uma voz ativa. Não há, neste caso, nenhuma marca morfológica de voz em levou.
[6] Entende-se por competência a capacidade de o sujeito mobilizar recursos (cognitivos) visando abordar uma situação complexa.  (MORETTO, 2002, p. 22)

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